quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

A donzela que viu melar o luar

A poesia é algo tão belo e original! Mas naum acho que tudo possa “virar” poesia. Veja uma pequenina história verídica:
Dia 08 de setembro de 2006, numa sexta-feira, exatamente esse dia, eu fui, como de costume, mais uma vez ao meu trabalho no Instituto Histórico e Geográfico de Caxias. Certo, fazia meu trabalho tranqüilo, catalogando os livros da biblioteca (passava as informações dos livros para o programa no computador). Daí abro um livro, já não sei mais qual é esse livro, e encontro um papelzinho escrito, exatamente assim, sem tirar ou botar letra alguma:

Sra donzela
abra a janela
Contemple o luar
Vá contar nos dedos
Contadinho os peidos
Que eu vou soltar
Sai peido sizudo
Peido carrancudo
Sai peido calado
Desses eu não gosto
Porque sai com bosta
Deixa o cu melado.

Isso aí rima, mas...será que é poesia? Nhaa...vai da opinião de cada um né! Na minha não – foi assim que pensei na hora que li. Daí levei pra casa e comecei a analisar: o textículo anônimo começa com uma bela idéia que instiga o amor, a beleza, a surpresa. Logo depois, ao meio, a partir do quarto verso, começa a decair, instigando o erotismo e vulgaridade, com palavras como: “peitos” (em vez de “seios”, numa linguagem mais culta), e “peido”. Em seguida, no final, decai ainda mais na vulgaridade, com palavras como; “bosta” e “cu”. Criando uma atmosfera sinestésica (ou seja, com a figura de linguagem Sinestesia...rs..), em que sentimos o odor nauseante da “bosta” e somos capazes ateh de ver ela saindo de seu “lugar de origem”...rs.
Se vc não teve essa percepção de sinestesia, é caso à parte, porque falei de mim, eu senti.
Então conclui que, mesmo uma mente insana como essa, conseguiu criar por acaso, creio eu, um “poema” rimado, com um decaimento de valores organizado (que para certas pessoas é o contrário, o valor até vai aumentando), e alta força de sinestesia. Me fazendo perceber que a poesia depende dos dois lados: de quem escreve e de quem lê. Sendo esse último até, de certa forma, mais precioso, pois depende dele o sentido maior da poesia.
Esta pessoa que criou o texto, anonimamente, que chamo de “A donzela que viu melar o luar”, pode até tê-lo feito apenas por distração ou mulecagem, mas coube a mim fazer uma análise e procurar enxergar o sentido daquilo que estava escrito. Na vida temos que ser analistas: não podemos dizer simplesmente que algo é errado ou certo, que algo é melhor ou não presta. Temos que ter um senso crítico para analisar as coisas antes de dizermos se algo “é ou não poesia”.

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