CONTO DA MADRUGADA
Ele não sabia porquê dormia naquela madrugada, mas viu que era estranho, e, de repente, abriu os olhos. Ainda faltavam duas horas pro dia chegar e dizer: "Estou aqui!" Também não entendia porquê tanto silêncio, já que o tempo dele era aquele. Era o único tempo que sobrava pra ele.
O costume da insônia o fez banalizar-se ainda mais ao constatar que seu frágil sono era mais um sinal de derrota, porque lhe tomaram seu tempo. Ele odiava dormir e a madrugada era o único momento que havia tomado para si - como se fosse seu - pois nada mais lhe era de direito.
Assim, o todos-contra-um foi imbatível, e do seu tempo fez-se escambo com um falso e frágil sono, sem ter havido qualquer contrato social. Mais um momento imposto e ele cansava-se mais da palavra "imposição".
Queria rasgá-la do dicionário, literalmente arrançá-la e atear fogo pra esquecer que ela existia. Então, o fez. As brasas queimavam tão rápido quanto seu sono esvaía-se, a toda madrugada.
Era um fechar de olhos teatral; um rolar na cama (de um lado para outro) infernal, angustiante; dor nas pernas; imobilidade nos braços - às vezes - levantar; sentar; andar; olhar ao redor e ver as figuras horrendas da noite (que eram amigas dele, pois conviviam e sabiam que o que ele fazia era apenas tentar encontrar o seu tempo, o seu solitário momento).
Sentia saudade delas. A madrugada já não era a mesma depois da "lavagem-cerebral" que aquela palavra tentou fazer.
Seu sonho era encontrar um pico-de-montanha, em que, de lá, pudesse observar sozinho - já que sempre foi sozinho na vida - o que as pessoas faziam (cada uma) a vida delas, elas.
Antes não fazia isso: importar-se com a vida alheia era rústico, banal, ridículo; mas cansou-se do idealismo utópico da existência de uma sociedade feliz, que queria todos felizes, sem importar a quem, sem importar o que faziam.
Porque isso nunca existiu! Em seus dias seria impossível e, portanto, não havia vem previsão de dar certo.
As pessoas são simplemente idiotas, e sentem prazer em dar falso sono àqueles que não querem dormir, que não querem sonhar com contos-de-fadas de terror, que não querem se ludibriar com as falsas expectativas cotidianas. Que querem apenas um tempo pra si, pra fugir de tanto teatro.
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