terça-feira, 9 de outubro de 2007

CONTO DA MADRUGADA



Ele não sabia porquê dormia naquela madrugada, mas viu que era estranho, e, de repente, abriu os olhos. Ainda faltavam duas horas pro dia chegar e dizer: "Estou aqui!" Também não entendia porquê tanto silêncio, já que o tempo dele era aquele. Era o único tempo que sobrava pra ele.
O costume da insônia o fez banalizar-se ainda mais ao constatar que seu frágil sono era mais um sinal de derrota, porque lhe tomaram seu tempo. Ele odiava dormir e a madrugada era o único momento que havia tomado para si - como se fosse seu - pois nada mais lhe era de direito.
Assim, o todos-contra-um foi imbatível, e do seu tempo fez-se escambo com um falso e frágil sono, sem ter havido qualquer contrato social. Mais um momento imposto e ele cansava-se mais da palavra "imposição".
Queria rasgá-la do dicionário, literalmente arrançá-la e atear fogo pra esquecer que ela existia. Então, o fez. As brasas queimavam tão rápido quanto seu sono esvaía-se, a toda madrugada.
Era um fechar de olhos teatral; um rolar na cama (de um lado para outro) infernal, angustiante; dor nas pernas; imobilidade nos braços - às vezes - levantar; sentar; andar; olhar ao redor e ver as figuras horrendas da noite (que eram amigas dele, pois conviviam e sabiam que o que ele fazia era apenas tentar encontrar o seu tempo, o seu solitário momento).
Sentia saudade delas. A madrugada já não era a mesma depois da "lavagem-cerebral" que aquela palavra tentou fazer.
Seu sonho era encontrar um pico-de-montanha, em que, de lá, pudesse observar sozinho - já que sempre foi sozinho na vida - o que as pessoas faziam (cada uma) a vida delas, elas.
Antes não fazia isso: importar-se com a vida alheia era rústico, banal, ridículo; mas cansou-se do idealismo utópico da existência de uma sociedade feliz, que queria todos felizes, sem importar a quem, sem importar o que faziam.
Porque isso nunca existiu! Em seus dias seria impossível e, portanto, não havia vem previsão de dar certo.
As pessoas são simplemente idiotas, e sentem prazer em dar falso sono àqueles que não querem dormir, que não querem sonhar com contos-de-fadas de terror, que não querem se ludibriar com as falsas expectativas cotidianas. Que querem apenas um tempo pra si, pra fugir de tanto teatro.

By Junior Magrafil / Termos de Uso.